Quem construiu patrimônio costuma confiar no próprio julgamento, e com razão, porque foi esse julgamento que trouxe a família até aqui. Acontece que as decisões que criam patrimônio e as que o preservam pedem habilidades diferentes, e alguns dos erros mais caros aparecem justamente depois que o dinheiro já existe. Eles têm nome e foram estudados durante décadas. Experiência não protege de nenhum deles.
A dor da perda pesa mais que o prazer do ganho
Em 1979, Daniel Kahneman e Amos Tversky mostraram que as pessoas sentem uma perda com mais intensidade do que um ganho do mesmo tamanho. No mercado, isso produz um padrão descrito por Hersh Shefrin e Meir Statman em 1985, o efeito disposição: vende-se cedo o investimento que subiu, para garantir o lucro, e segura-se por anos o que caiu, à espera de que volte ao preço de compra. A carteira vai acumulando os perdedores e se desfazendo dos vencedores, e ninguém percebe, porque cada decisão isolada parece prudente.
O preço de compra nada diz sobre o futuro
A âncora mais comum é o valor pago. O imóvel comprado por R$ 2 milhões que hoje vale R$ 1,6 milhão continua no patrimônio porque vender seria admitir o prejuízo, mesmo que o dinheiro rendesse mais em outro lugar. O mesmo acontece com a ação que já foi cara ou com a participação numa empresa que perdeu o fôlego. Um teste simples ajuda a separar apego de análise: com o dinheiro na mão hoje, a família compraria aquele ativo pelo preço atual? Se a resposta for negativa, mantê-lo é uma nova decisão de investimento, tomada sem nenhum critério.
Concentração que parece segurança
Empresários tendem a concentrar o patrimônio no que conhecem de perto: a própria empresa, imóveis na mesma cidade, às vezes ações do mesmo setor em que atuam. A sensação é de controle, mas o risco se acumula num único lugar, porque uma crise no setor derruba ao mesmo tempo a renda, o valor da empresa e o preço dos imóveis comerciais ligados a ela. Patrimônio concentrado em ativos difíceis de vender é também o que obriga a família a se desfazer de bens com desconto quando chega a conta de uma sucessão, como mostramos no texto sobre quanto custa um inventário.
Movimento demais custa caro
Brad Barber e Terrance Odean analisaram as contas de mais de sessenta mil famílias numa corretora americana e publicaram, em 2000, que os investidores que mais negociavam obtinham os piores resultados líquidos, corroídos por custos e por decisões de curto prazo. A abundância de informação agrava o problema. Quem acompanha o mercado o dia inteiro sente que precisa agir, e cada movimento parece justificado pela notícia daquela manhã, até que a soma dos movimentos se revela pior do que teria sido ficar parado.
O antídoto é uma política escrita
O que protege contra esses vieses é decidir as regras antes de o mercado testar a disciplina da família. Uma política de investimentos, em poucas páginas, define para que serve cada parcela do patrimônio e em que prazo ela será usada, os limites de concentração por ativo, emissor e setor, a faixa de tolerância em torno da alocação desejada e o que dispara um rebalanceamento. Com isso escrito, vender o que subiu além da faixa e comprar o que caiu deixa de ser aposta e passa a ser o cumprimento de uma regra combinada.
A política também dá propósito a cada real. Dinheiro reservado para a faculdade dos netos daqui a oito anos precisa estar em ativos diferentes do capital de longo prazo destinado à sucessão, e a reserva para as despesas do ano não deve correr risco de mercado. Quando cada parcela tem uma função, fica mais fácil resistir ao impulso de mexer em tudo a cada notícia. O método para separar o patrimônio por horizonte e testá-lo contra cenários está no texto sobre carteira para cenários.
Experiência ajuda a reconhecer boas oportunidades e a separar o que é ruído do que é informação, mas continua sujeita aos mesmos atalhos mentais que levam qualquer pessoa a segurar o que caiu e vender cedo o que subiu. O primeiro passo para decidir com método é enxergar o patrimônio inteiro, com cada ativo, cada objetivo e cada concentração no mesmo lugar, organizados pelos quatro pilares do planejamento patrimonial. O Diagnóstico Patrimonial organiza essa visão a partir de cerca de dez minutos de perguntas e devolve uma leitura separada por pilar.
