Todo começo de ano chegam as projeções para juros, inflação, câmbio e bolsa, e a pesquisa Focus, que o Banco Central publica toda semana com as expectativas do mercado, mostra essas projeções sendo revistas ao longo dos meses conforme os dados aparecem. Montar o patrimônio em cima de uma previsão é apostar que ela vai se confirmar. A alternativa é montar uma carteira que funcione razoavelmente bem em vários cenários, inclusive naqueles que ninguém esperava.
Separar o patrimônio por horizonte
O primeiro passo é dividir o patrimônio pelo prazo em que cada parcela será usada. O dinheiro das despesas dos próximos um ou dois anos precisa de liquidez e estabilidade, e fica bem em aplicações pós-fixadas, como o Tesouro Selic ou CDBs de liquidez diária dentro do limite do FGC. O que será usado entre três e dez anos pode buscar retorno real com previsibilidade, em títulos atrelados ao IPCA com vencimento próximo da data de uso. O capital de longo prazo, sem data para ser consumido, é o que aguenta oscilação e pode estar em ações, fundos imobiliários e imóveis.
A vantagem dessa divisão é que uma queda da bolsa deixa de ser uma emergência. Com as despesas dos próximos anos protegidas, a parcela de longo prazo pode esperar a recuperação sem que ninguém precise vender ativos na baixa para pagar as contas.
Testar a carteira contra cenários
Com as parcelas definidas, vale perguntar o que acontece com cada uma em situações diferentes. Juros altos por mais tempo favorecem o pós-fixado, derrubam o preço de mercado dos títulos longos e costumam pesar sobre ações e fundos imobiliários. Inflação acima da meta corrói a renda fixa prefixada e é melhor absorvida pelos títulos atrelados ao IPCA e pelos ativos reais. Uma recessão reduz o lucro das empresas e os aluguéis, e costuma vir acompanhada de cortes de juros que valorizam os títulos de prazo longo.
O teste serve para garantir que nenhum cenário plausível obrigue a família a mudar de vida ou a vender ativos no pior momento. Uma carteira que ganha em todos os cenários não existe. Quem promete uma está vendendo outra coisa. O que existe é uma carteira cujo pior resultado a família consegue suportar sem abandonar o plano.
Um cuidado frequente envolve os títulos atrelados à inflação. Levados até o vencimento, eles pagam a taxa contratada, mas oscilam no caminho pela marcação a mercado, e a oscilação é maior quanto mais longo o prazo. Quem pode precisar do dinheiro antes deve escolher vencimentos compatíveis com a data de uso, mesmo que o título mais longo pague uma taxa maior.
Regras de rebalanceamento
As proporções mudam sozinhas. Depois de um ano forte da bolsa, a parcela em ações cresce além do planejado, e o risco da família sobe sem que ninguém tenha tomado essa decisão. Uma regra de rebalanceamento resolve o problema: define-se uma faixa de tolerância em torno da alocação desejada, por exemplo de cinco pontos percentuais para cima ou para baixo, e sempre que uma classe sai da faixa volta-se à proporção original, vendendo o que subiu e comprando o que ficou para trás.
Como é decidida antes, a regra também protege contra os vieses que levam a comprar depois da alta e a vender depois da queda, tema do texto sobre patrimônio sem propósito.
Riscos que o cenário de mercado não captura
Parte dos maiores riscos do patrimônio não tem relação com juros ou bolsa: a morte de quem sustenta a família, uma mudança na lei tributária, um inventário que trava os bens por anos. Eles pedem instrumentos próprios, como seguro de vida e planejamento sucessório, e cabem no mesmo exercício: se isso acontecesse amanhã, o que a família teria de vender? Neste ano, as mudanças que alcançam dividendos e heranças estão nos textos sobre a tributação das altas rendas e as novas regras do ITCMD.
Preparar-se dá mais trabalho do que prever, porque exige olhar para o patrimônio inteiro e para cenários desconfortáveis. Em compensação, funciona sem depender de acertar o futuro. Para começar pelo retrato do patrimônio de hoje, o Diagnóstico Patrimonial leva cerca de dez minutos, guarda o progresso e cobre investimentos, proteção, sucessão e previdência.
